Ser mãe nos dias de hoje: o lado B da maternidade
Para muitas mulheres, a decisão de ter filhos pode ser uma das aventuras mais fascinantes da vida. A experiência da maternidade pode trazer um aprendizado e uma transformação interior do ato de amar que nada mais no mundo traz.
Ter um filho tem o potencial de proporcionar uma vivência de ligar-se a um além de si mesmo, de possibilitar uma conexão profunda com a Criação.
E ser mãe é onde tudo começa.
Mas convenhamos, ser mãe nos dias de hoje não é nada fácil.
Os tempos mudaram.
Ser mãe hoje implica numa conciliação bastante pesada de diversas funções simultâneas, entre trabalho doméstico, vida profissional e a criação dos filhos. Se antes, no tempo de nossas avós, não existiam as fraldas descartáveis ou papinhas prontas, hoje temos uma pressão cultural sobre as múltiplas facetas da identidade feminina.
A realidade que nos circunda ficou muito mais complexa, e com isso nossas cobranças também aumentaram.
Ter filhos é sempre uma experiência internamente desorganizadora, que nos remete a emoções profundas e desconhecidas, guardadas em nosso inconsciente. E como a Cultura em que vivemos afeta ou acolhe nossa trama de subjetividades, há muito o que pensar sobre a vivência da maternidade.
Tudo isso contribui para que a experiência da maternidade seja mesmo um enorme desafio.
A maternidade exige que as mulheres desenvolvam habilidades de gestão de tempo e organização que muitas vezes são semelhantes à de um malabarista profissional. Entre o cuidado com os filhos, a manutenção da casa e o desempenho no trabalho, a mulher moderna se vê constantemente pressionada a ser perfeita e não falhar em todos os aspectos.
Culturalmente, a mídia e as redes sociais frequentemente exacerbam essa pressão, criando uma imagem idealizada da "mãe perfeita" que é quase impossível de alcançar. Essa idealização é muitas vezes alimentada pela nossa própria idealização internalizada a respeito da ideia que fazemos sobre “a mãe que julgamos que deveríamos ser...”
Além disso, a divisão de tarefas domésticas infelizmente ainda é um desafio em muitas famílias, sobretudo no Brasil. Apesar dos avanços no campo da igualdade de gênero, muitas mulheres ainda carregam a maior parte das responsabilidades domésticas. Isso pode levar a um esgotamento físico e emocional significativo – o chamado mommy bornout, já que equilibrar todas essas demandas é uma tarefa monumental.
A sobrecarga mental, também conhecida como "carga mental invisível", é uma realidade que muitas mães enfrentam diariamente.
Outro aspecto importante a ser considerado é a rede de apoio, ou a falta dela. Antigamente, era comum que as famílias fossem mais extensas e que houvesse uma comunidade ao redor para ajudar na criação dos filhos, o que também criava uma rede de relações afetivas simbolicamente muito ricas e significativas.
Hoje, com a mobilidade urbana e as mudanças nas estruturas familiares, muitas mães encontram-se isoladas, sem o suporte necessário ou sem acesso a uma rede estendida de apoio.
Muitas vezes, a falta dessa rede de apoio confiável pode tornar a experiência da maternidade, solitária, desafiadora e muito desgastante, ou então pressionar as mulheres a realizarem renúncias pessoais e profissionais para o desempenho do papel maternal para tentar alcançar maior equilíbrio.
Por isso, é essencial que a sociedade reconheça e valorize o papel das mães, oferecendo suporte adequado e promovendo políticas que facilitem a conciliação entre trabalho e família.
Licenças parentais adequadas, horários de trabalho flexíveis e acesso a serviços de qualidade para a infância são algumas das medidas que podem aliviar um pouco o peso sobre os ombros das mães.
Afinal, criar os filhos é uma responsabilidade que merece receber reconhecimento e apoio social acessível para as famílias.